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Especial Greve Geral no Brasil II

Estudantes secundaristas e universitários aderem à paralisação em seus locais de ensino e às manifestações contra as reformas do governo Temer

Desde as primeiras horas da manhã do último dia 28 aconteceram no país as primeiras manifestações em apoio à Greve Geral, contra as reformas impostas pelo governo. Nas principais capitais, os transportes foram parcialmente paralisados e uma série de vias foram ocupadas por movimentos sociais, sindicatos e entidades estudantis.

A adesão da juventude à Greve Geral expressa a preocupação daqueles que não sabem o que esperar do futuro: a Reforma da Previdência Social coloca para esses jovens a impossibilidade da aposentadoria e a maior dificuldade em se inserir no mercado de trabalho. O PL da Terceirização e a Reforma Trabalhista impõe a precarização à um setor já extremamente afetado pela alta rotatividade do trabalho. Soma-se hoje à esse cenário o desemprego, que chega a atingir cerca de 14% da população brasileira, sendo que entre os jovens esse índice chega a 30%, pelos dados do IPEA.

Nesse sentido, jovens estudantes se somaram-se à Greve Geral em suas escolas e universidades. A maior universidade do país, a Universidade de São Paulo (USP), amanheceu paralisada e trancada por estudantes, professores, trabalhadores e moradores da Zona Oeste da cidade. A manifestação seguiu para a Avenida Vital Brasil, onde foi duramente reprimida pela Polícia Militar.

Segundo a estudante Raquel Reis, do curso de Ciências Sociais e diretora do DCE da USP “A juventude é um dos setores mais afetados com essas reformas a longo prazo, seu futuro está ameaçado porque com a Reforma da Previdência teríamos que contribuir 40 anos ininterruptamente para conseguirmos uma aposentadoria digna. O problema é que a idade mínima é de 65 anos. Além disso, temos a aprovação da terceirização irrestrita e somando esses dois projetos a juventude está fadada a trabalhar em postos precarizados, que não estão protegidos pelas leis trabalhistas. Ou seja, se você não consegue contribuir com a previdência à longo prazo, você não consegue o se aposentar. Outra questão é que a reforma trabalhista retira também muitos direitos conquistados pela classe trabalhadora”.

A Reforma Trabalhista aprovada na noite do dia 26/04  no  Congresso Nacional, permite que a jornada de trabalho passe de 8 horas por dia, à 12 horas. O tempo de descanso dos funcionários, que hoje é de 1 hora à 2 horas poderá ser negociado, desde que se cumpra 30 minutos. Além disso, grávidas e lactantes poderão ser colocadas para trabalhar em local insalubre, o trabalho temporário é estendido – ou seja, sem garantia de emprego e salário – e será permitida que ocorram demissões coletivas sem multa.

Assim, o empregador pode demitir todos os funcionários e contratar terceirizados sem pagar multa ou garantir para os terceirizados direitos básicos como transporte e férias. Somando essas medidas com a Lei da Terceirização, temos um cenário de retirada de direitos duramente adquiridos e aprovação irrestrita do trabalho precário e sem garantias básicas, como o direito a aposentadoria.

A grande preocupação em torno da reforma é o caráter explícito da imposição dos interesses das empresas sobre as normas da CLT. Segundo o portal The Intercept Brasil, cerca de 34,4% das propostas de emendas ao projeto, dentro da Comissão Especial da Reforma Trabalhista foram redigidas em computadores dos representantes da Confederação Nacional dos Transportes, Confederação Nacional das Instituições Financeiras, Confederação Nacional da Indústria e Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística. Ou seja, 1 em cada 3 propostas de alteração no texto.

Para a estudante de física e diretora do DCE da USP, Maíra: “O movimento estudantil, historicamente, sempre cumpriu um papel importante como ferramenta de luta nas disputas da sociedade. Apesar de juventude ter passado por um longo processo de estagnação no último período, a ofensiva do capital vem exigindo uma resposta imediata de todos os setores da população e principalmente de nós, jovens, que seremos os mais afetados pelas reformas. Estamos enfrentando o mais duro avanço das medidas de austeridade do neoliberalismo nos últimos tempos, e isso se materializa no cotidiano através políticas e medidas de corte que vão surrupiar as já parcas condições de existência dos trabalhadores para garantir o lucro da burguesia. São ataques vindos por todos os lados. O empresariado, o latifúndio e o capital financeiro e industrial querem que a população arque com a falência de um sistema político-econômico que só se sustenta através da intensificação da exploração da classe trabalhadora e da repressão aos movimentos sociais. Então, toda essa conjuntura está desencadeando um processo de lutas muito forte no país e impulsionando a reorganização política da juventude”

A estudante ainda afirma que: “Toda essa movimentação para a greve geral é consequência concreta da necessidade de que nos coloquemos como agentes ativos de nossa própria história, não só para barrar esses ataques, mas para avançar na construção de um programa que seja pautado pelas e para as camadas populares. Construir a greve geral é tarefa de uma juventude que precisa garantir seus direitos, e isso só será possível se feito em conjunto com a classe trabalhadora, parando a produção e tomando as ruas.”

Essa foi a primeira Greve Geral que ocorreu no país em duas décadas, e estima-se que tenha causado um rombo de R$ 5 bilhões no comércio brasileiro, mostrando o descontentamento latente da população frente a um governo que aplica suas medidas de austeridade em ritmo avançado, que leva essa massa explorada a dar sua resposta de forma igualmente avançada e dura.

 

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